08/08/2011

Feliz por Nada

Imagem: Internet

Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.

Digamos: feliz porque maio recém começou e temos longos oito meses para fazer de 2010 um ano memorável. Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou. Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.

Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.

Feliz por nada, nada mesmo?

Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza. "Faça isso, faça aquilo". A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?

Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando "realizado", também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.

Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.

Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre. Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?

A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.

Ser feliz por nada talvez seja isso.
Martha Medeiros

Uma semana iluminada!
Ana Maria:

04/08/2011

A Arte de Ser Feliz


Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs um pobre homem com um balde , em silêncio, ia atirando com a mão gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra, era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros, e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janelae encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que encontro pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Às vezes, um galo canta. Às vezes um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles



30/07/2011

O Corpo como Instrumento

Tela: "Corpo Solitário" - Ana Maria Pereira de Freitas


                 O corpo é a mensagem antes da palavra, ou seja, o movimento transcende a palavra, a palavra não dita. O movimento quando isento de razão é a manifestação das memórias inconscientes, é a transcendência dos limites, esse corpo que já não é meu e que é muito mais que eu. A experiência vivida no corpo é de um vazio presença, ao mesmo tempo que você transcende o corpo você tem consciência dele. Você não está fora do espaço, mas é o espaço.

                Dos meus questionamentos: "O que pode um corpo no espaço? Terá esse corpo autonomia para modificá-lo? Na edificação ou na natureza o corpo interage buscando novas formas, provocando o que é estático. Um paradoxo? Quem é quem? Será o corpo um espaço ou o espaço um corpo?"

                Esses meus questionamentos encontraram ressonância numa frase de Jung: "Todos os efeitos são recíprocos e nenhum elemento age sobre o outro sem que ele próprio seja modificado."

               Partindo desse princípio uma síntese que pude fazer  é que retratamos as relações humanas e espaciais. Como elas acontecem? Atraímos, provocamos, negamos, amamos, odiamos, nos relacionamos de alguma forma. Quando tudo isso nos escapa, o que nos resta? Além do encontro consigo mesmo, que inevitavelmente acontece e não se pode negar, há a relação com um espaço, interno ou externo, que também modifica, atrai, provoca, ama, odeia, se relaciona e que inexoravelmente nos traga. É preciso uma abertura ampla e uma disposição de entrar em contato com o desconhecido, é necessário a ousadia de afirmar "eu não sei", para que um espaço inteligente de percepção e compreensão do novo possa nascer.

                 O Homem é este caminho que passa da unidade indiferenciada, através do conflito, através da dualidade, em direção ao infinito e ao sem-limites de si mesmo. O que está entre dois? Vida/morte, sombra/luz, vazio/cheio, bem/mal, certo/errado, amor/ódio, carência/plenitude.

                 "O objetivo é a saída dos limites nos quais nos encontramos, e isto requer uma escuta de todo corpo, de todo coração, de toda inteligência.  É preciso morrer para um estado de nós mesmos com o qual nos identificamos para ter acesso a um estado de consciência mais elevado, aqueles que conseguirem suportar as núpcias dessas dualidades em si mesmo morrerão sem dúvida, mas não morrerão sem terem vivido."

Ana Maria


28/07/2011

Os 4 Elementos e suas Expressões no Eu


                  Nosso mundo é composto de quatro energias fundamentais, ou elementos, que são os blocos de construção da vida. Quando falo nos elementos, não me refiro aos seus aspectos físicos, e sim aos modos arquetípicos de experiência que são inerentes a todas as coisas. Embora esses quatro elementos – fogo, terra, água e ar – existam fisicamente, no contexto deste texto estaremos pensando mais em uma natureza vibracional (energia) que material.
                Do ponto de vista astrológico, tudo ressona com a padronização energética de um ou mais dos elementos. Os humanos são combinações das energias dos elementos contidos em seus mapas natais.
                Os quatro elementos não são apenas símbolos ou conceitos abstratos, mas se referem às forças vitais que compõem toda a criação e que podem ser percebidas pelos sentidos físicos. Portanto, os elementos não são somente a base da astrologia e de todas as ciências ocultas, mas compreendem tudo o que habitualmente podemos perceber e sentir.
                 Para que consigamos controlar e equilibrar as energias dos elementos, temos que desenvolver o aspecto positivo e controlar os negativos em nós mesmos, no nosso temperamento.

TERRA: “ A terra é um elemento muito apropriado para ocultar e manifestar as coisas que lhe são confiadas.” (Le cosmopolite)
                  A terra abaixo de nós, que além de nos proporcionar uma base estável, nos dá a nutrição, a proteção, é o arquétipo da Grande Mãe, um símbolo adequado para o elemento terra. Costuma-se relacionar esse elemento à segurança, à permanência, à estrutura, ao corpo físico e ao reino material. A terra é o elemento da forma, que incorpora o espírito, tornando-o evidente.
                 A terra é um dos dois elementos que simboliza o feminino ou o princípio Yin. O quadrado e o número quatro e oito são associados ao elemento. O marrom e o verde são as cores relacionadas com ele. Os sons primitivos, mais densos e contínuos traduzem movimentos arredondados, lentos e firmes expressando também características desse elemento.
 
ÁGUA: Emoções, sonhos, mistérios, instintos e imaginação pertencem ao elemento água. Da mesma forma que seu equivalente físico, a água é fluída e inconstante. E como o mar, sua energia pode ser calma ou turbulenta – pode nos fazer flutuar ou nos engolir. A água é a força que nos conecta as outras pessoas e nos permite responder a estímulos de nosso ambiente. O elemento água é o mais enigmático de todos e o mais distante do reino racional.
              A água é um dos dois elementos que simbolizam o princípio feminino, ou yin. As coisas, frias, úmidas, escuras ou produtivas pertencem ao elemento água. O azul profundo, o verde oceano e violeta são as cores da água. Os sons ondulantes, leves traduzem movimentos circulares, contínuos e flutuantes expressando características aquáticas.
 
FOGO: Podemos começar a compreender a essência do elemento fogo se olharmos para o sol. Esse corpo celeste proporciona o calor que permite a vida e a luz de que precisamos para sobreviver na terra. Sem a energia ardente do sol, nada em nosso planeta prosperaria. Em um sentido esotérico, o fogo representa o espírito criativo que anima a forma, inicia a ação e libera a imaginação. O fogo é a força de vida que faz com que todas as coisas cresçam, floresçam, se reproduzam e morram.
                Ativo, voltado para o exterior e dinâmico, o fogo simboliza a força masculina ou yang, bruta, não diluída, que está presente no cosmo. As cores vermelho e laranja incorporam esse elemento. Os barulhos altos, rápidos, entrecortados traduzem movimentos rápidos e desconexos que expressam características do fogo. Esse elemento é a base do combate, esportes, sexo, inspiração artística e atos de coragem.
 
AR: O elemento ar compreende o plano mental, as idéias, a linguagem e o pensamento abstrato. Arroyo interpreta o ar como o universo de idéias arquetípicas por trás do véu do mundo físico.
                Como o vento, que é um símbolo apropriado para esse elemento, o ar é instável e sem forma, incansável e impossível de ser contido.
                O ar força masculina ou yang, é um elemento ativo e voltado para o exterior. Seus números são o cinco e onze e suas cores são o amarelo e o azul. Uma energia claramente humana, o elemento ar está presente na maior parte de nossas relações interpessoais. Da mesma forma como o vento apanha sementes e as transportam para outro lugar onde elas se enraízam e crescem, as idéias se difundem e são germinadas entre as pessoas pela linguagem.
               Os sons longos, cortantes e metálicos traduzem movimentos rápidos, retos e cortantes expressando características desse elemento.
Ana Maria P. Freitas

22/07/2011

13/07/2011

Mulher Selvagem


             O arquétipo da mulher selvagem, bem como tudo que está por trás dele, é o benfeitor de todas as pintoras, escritoras, escultoras, dançarinas, pensadoras, rezadeiras, de todas as que procuram e as que encontram, pois elas todas se dedicam a inventar, e esta é a principal ocupação da Mulher Selvagem. Como toda arte, ela é visceral, não cerebral. Ela sabe rastrear e correr, convocar e repelir. Ela sabe sentir, disfarçar e amar profundamente. Ela é intuitiva, típica e normativa. Ela é totalmente essencial à saúde mental e espiritual da mulher.

             E então, o que é a Mulher Selvagem? Do ponto de vista da psicologia arquetípica, bem como pela tradição das contadoras de histórias, ela é a alma feminina. No entanto, ela é mais do que isso. Ela é a origem do feminino. Ela é tudo o que for instintivo, tanto do mundo visível quanto do oculto – ela é a base. Cada uma de nós recebe uma célula refulgente que contém todos os instintos e conhecimentos necessários para a nossa vida.

            Ela é a força da vida-morte-vida; é a incubadora. É a intuição, a vidência, é a que escuta com atenção e tem o coração leal. Ela estimula os humanos a continuarem a ser multilíngües: fluentes no linguajar dos sonhos, da paixão, da poesia. Ela sussurra em sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la.

                Ela é idéias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito, muito tempo. Ela é a fonte, a luz, a noite, a treva e o amanhecer. Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseira da raposa. Os pássaros que nos contam segredos pertencem a ela. Ela é a voz que diz, “Por aqui, por aqui”.

                Ela é quem se enfurece diante da injustiça. Ela é a que gira como uma roda enorme. É a criadora dos ciclos. É à procura dela que saímos de casa. É a procura dela que voltamos para casa. Ela é a raiz estrumada de todas as mulheres. Ela é tudo que nos mantém vivas quando achamos que chegamos ao fim. Ela é a geradora de acordos e idéias pequenas e incipientes. Ela é a mente que nos concebe; nós somos os seus pensamentos.

               Onde ela está presente? Onde se pode senti-la? Onde se pode encontrá-la? Ela caminha pelos desertos, bosques, oceanos, cidades, nos subúrbios e nos castelos. Ela vive entre rainhas, entre camponesas, na sala de reuniões, na fábrica, no presídio, na montanha da solidão. Ela vive no gueto, na universidade e nas ruas. Ela deixa pegadas para que possamos medir nosso tamanho. Ela deixa pegadas onde quer que haja uma única mulher que seja solo fértil.

              Onde vive a mulher selvagem? No fundo do poço, nas nascentes, no éter do início dos tempos. Ela está nas lágrimas e no oceano. Está no câmbio das árvores, que zune à medida que cresce. Ela vem do futuro e do início dos tempos. Vive no passado e é evocada por nós. Vive no presente e tem um lugar à nossa mesa, fica atrás de nós numa fila e segue à nossa frente quando dirigimos na estrada. Ela vive no futuro e volta ao tempo para nos encontrar agora.

                 Ela vive no verde que surge através da neve; nos caules farfalhantes do milho seco do outono; ali onde os mortos vêm ser beijados e para onde os vivos dirigem suas preces. Ela vive no lugar onde é criada a linguagem. Ela vive da poesia, da percussão e do canto. Vive de semínimas e apojaturas, numa cantata, numa sextina e no blues. Ela é o momento imediatamente anterior àquele em que somos tomadas pela inspiração. Ela vive num local distante que abre caminho até o nosso mundo.

               As pessoas podem pedir evidências, uma comprovação da existência da Mulher Selvagem. No fundo, estão pedindo provas da existência da psique. Já que somos a psique, somos também a prova. Cada uma e todas nós comprovamos não só a existência da Mulher Selvagem, mas também a sua condição em termos coletivos. Somos a prova do inefável numem feminino. Nossa existência é paralela à dela.

               Nossas experiências internas e externas com ela são essas provas. Nossos milhares e milhões de encontros intrapsíquicos com ela, em nossos sonhos noturnos e pensamentos diurnos, em nossos anseios e aspirações, são a confirmação de que ela existe. O fato de nos sentirmos desoladas na sua ausência, de ansiarmos por sua presença quando dela estamos separadas – essas são manifestações de ela ter passado por aqui.
 
Texto extraído do Livro: Mulheres que Correm com Lobos de Clarissa Pinkola Estés

06/07/2011

Um Propósito


Imagem: colecaodepedras.blogspot.com

Evoluir

Dando à vida a liberdade para a experimentação,
Resistindo ao impulso de apenas repetir,
Buscando a forma renovada, ampliada, ainda não conhecida.
Evoluir
Vivendo os afetos,
Evitando negá-los, dificultando, o quanto possível, o movimento de simplesmente desconsiderá-los.
Evoluir
Trazendo de dentro de si o sentido,
Sentindo,
Fazendo-se a cada momento,
Sem se cristalizar, sem a exigência de enfrentar.
Acolhendo o que é próprio,
Se validando... e expressando.
Evoluir
Tornando-se fluido,
Agindo, integrando, interagindo.
Reconhecendo cada vontade,
Realizando o desejo,
Adaptando apenas o necessário,
Cuidando para que o jeito seja o seu, para que ahora seja a sua.
Sem atropelos, sem cobrança,
Vibrando disposição e querer, vontade de passar a ter.
Se consigo, tudo pode vir a ser.

JC, por Nereida F. Vilela
Revista Seja 

26/06/2011

UM DIA QUALQUER DE SOLITUDE...


Acordar de manhã com a alma cheia de gratidão, agradecer a existência e abençoar o dia. É um estado, não é necessário nenhum esforço ou lembrete, porque isso já está registrado no corpo. O café chega com gosto de frutas e cheiro de alegria, nada de preguiça e a mesa é preparada como um convite ao deleite do pão. Logo a disposição convida para uma caminhada, a vestimenta adequada para o conforto de caminhar macio, o contato com a brisa fresca começa o aproximar da natureza, é fato ter que somar com o barulho das máquinas, mas que nada, a energia integra e harmoniza.

Depois o banho, que delícia sentir o corpo agradecido pelo alongamento e pronto, vigoroso para começar o dia... Que dia quero hoje para mim? Uma escuta necessária para que tudo possa transcorrer com leveza. O que quero fazer? Já decidi que hoje é um dia solitário, não quero estar com ninguém, apenas comigo mesma. Tenho infinitas opções, desde abrir os guardados, terminar algo que tenha começado, iniciar um trabalho manual, pintar, desenhar, ou quem sabe até arrumar minha casa e coisas.

É chegado o momento sagrado do almoço, se posso escolher mais a vontade, vejo o que quero comer e me dou o desfrute, se não, preparo um lanche básico com cara de refeição e crio um ritual para merecer a ceia. Uma sesta, só para curtir a preguiça, nada de dormir.

Agora a tarde desponta e tenho tempo para continuar fazendo o que comecei ou então posso escolher sair, sair sozinha é muito bom, porque você vai fazer o que realmente quiser, sem ter que dividir com ninguém. Se gosta de andar em shopping, está na hora, particularmente eu não gosto. Minhas opções são difíceis de encontrar companhia, por isso sempre gosto de estar sozinha para os meus programas. Se preciso comprar algo, é uma boa hora, posso andar sem pressões e fazer do meu jeito e no meu tempo, depois posso ir ao cinema, ou teatro, ou algum programa cultural que só eu mesma curto. Às vezes sair requer alguns gastos extras e não sendo um bom momento, minha casa, meu céu, posso ver um filme ou então mergulhar nas minhas mil e uma fantasias, e é o que não falta, adoro criar, qualquer coisa, é difícil citar, porque depende da disponibilidade interna, mas estas tarde podem ser reveladoras, geralmente é o que gosto de fazer, sair é uma opção mais rara. Um café é imprescindível numa tarde, com requinte de cafeteria, pão integral com ameixa.

Tenho um compromisso todos os dias, que independe de companhia ou solitude, é a Lua, minha cachorrinha, então na minha programação, tem a dela, pelo menos duas voltinhas básicas para o exercício diário.

Quando me dou conta, já é noite, se for de lua cheia a contemplação é fato, é uma das coisas que eu ADORO fazer, e ando muito para ver o nascer da lua cheia, senão, basta sentar e contemplar. Quando vou me deitar o coração está repleto, uma alegria que não depende de nada porque ela é, ela acompanha o dia e é o ingrediente para que eu seja uma boa companhia para mim mesma, e o melhor é que quando chega a hora de me deitar estou envolvida num manto de paz, que para existir fora, tem que existir dentro.
 
Esses dias são de uma simplicidade e de uma grandeza sem igual, é necessário que nos permitamos vivê-los.
 
Ana Maria

20/06/2011

Mudanças


Chega um momento em que sentimos dentro de nós um sinal, um chamado, se a escuta é bastante sabemos que é chegada a hora de mudar. Mudar o quê? Geralmente esses chamados nos encontram em momentos confortáveis, vindos de mudanças anteriores e que agora já se acomodaram. Para os acomodados esse é um bom momento de permanecer e deixar que tudo se transforme num grande tédio. Para aqueles que estão em constante movimento, seguindo o fluxo da vida, sabemos que esse é um novo momento de se criar novos movimentos.

Muitas vezes não sabemos o que é, apenas pressentimos a aproximação de algo iminente. Por isso nesses momentos é fundamental que estejamos em sintonia com nosso interior, recolher-nos para receber de dentro as informações necessárias, buscar a fonte, e para isso é necessário silêncio e escuta, uma conexão profunda consigo mesmo. Assim tudo flui, com essa abertura, o universo conspira a favor, as possibilidades aparecem e são ouvidas, e você sintonizado com seu interior está fortalecido para fazer novas escolhas e preparado para viver novos momentos.

Geralmente isso não acontece de forma tão simples, o medo nos visita, e sair da zona confortável é bastante complicado. É preciso confiar, uma confiança que só o coração pode nos dar, esse contato com o nosso interior é fundamental para que as mudanças aconteçam. É preciso coragem para viver o desconhecido e abandonar nossas pretensas seguranças, e esse, geralmente, não é o caminho mais fácil. Mas é aí, exatamente nesse lugar, que está o viço, que se esconde a inspiração pelo viver. Se ficarmos, nos entregamos ao tédio, mas se permitirmos o movimento, criamos vida nova, movemos nossas energias, vivificamos o corpo e aprendemos. Errar faz parte do caminho, e é importante, o essencial é aprender a confiar na vida e principalmente em nós mesmos.

Que sejamos sempre iluminados.
Ana Maria






12/06/2011

As Mandalas e a Meditação



As origens da tradição da mandala talvez remontem às pinturas rupestres e às inscrições na rocha usadas pelos nossos ancestrais primitivos como fonte de reflexão sobre a energia espiritual. A mandala é uma imagem sagrada que, ao ser focalizada, volta a nossa atenção para o nosso mundo interior e nos leva a entender o seu significado simbólico e absorvê-lo mentalmente. Os símbolos da mandala são dispostos em padrões geométricos ou simétricos, e a imagem resultante serve para expressar diferentes elementos do nosso eu mais profundo, o “eu interior” por trás da nossa personalidade superficial. Enquanto a mente consciente usa palavras para categorizar e definir tanto objetos quanto experiências, a mente inconsciente lida com imagens e símbolos, que geram vários tipos de sensação e percepção. Quando nos sintonizamos com uma mandala, com o tipo certo de concentração, sentimos que a nossa consciência passa por uma mudança. A meditação sobre a mandala nos leva a empreender uma jornada rumo à nossa sabedoria interior, que está em harmonia com o cosmo.

O formato considerado mais eficaz numa mandala é o círculo. Ele é usado em todas as mandalas, ao passo que outros formatos como o quadrado e o triângulo têm uma importância secundária. O círculo representa o ciclo eterno da vida, sem começo nem fim. O espaço no interior do círculo simboliza o domínio interior, um espaço mágico encapsulado e protegido pela periferia. O ponto central, silencioso, a partir do qual se mede a circunferência representa o eu, o eixo espiritual em torno do qual a roda da vida executa o seu perpétuo movimento.

Na natureza o círculo pode ser visto no sol, na lua e nos planetas. Ele é o formato que define frutos como a laranja e a cereja. O círculo nos fita através da íris e da pupila do olho. Também pode ser visto no miolo da flor e na cabeça do cogumelo. A meditação sobre o círculo de uma mandala natural pode nos levar a percepção da totalidade, da harmonia e da paz interior.

Uma variação do círculo é a espiral, em que o movimento circular se assemelha a uma mola. Em vez de convergir para um mesmo ponto, cada seção atinge uma nova fase, lembrando-nos do aprendizado progressivo que nos leva ao verdadeiro conhecimento – o eu espiritual profundo. Em seguida vem o formato oval, fechado como o círculo e símbolo do nascimento e da renovação. Todas essas formas são importantes na natureza. O quadrado, em comparação, simboliza o confinamento; ele transmite a sensação de solidez e segurança que “aprisiona” a energia dos símbolos presentes dentro dele. Todas as formas dentro da mandala, quando usadas como objeto de meditação, ajudam a potencializar cada um dos seus símbolos e a promover a expansão da consciência.

A meditação sobre a mandala requer um processo de relaxamento. De início, a mente pode ser tentada a focalizar apenas os diferentes aspectos da mandala e tentar decifrar o significado que o seu simbolismo tem para você. Quando estiver meditando, no verdadeiro sentido da palavra, é importante que você deixe de lado a “mente simiesca”, que busca incessantemente estímulo e distração, e deixe simplesmente que a mandala cause uma impressão na sua consciência, sem tentar analisá-la. As suas faculdades intelectuais não podem participar da meditação. Tudo o que você tem de fazer é absorver a imagem e deixar que ela cause um impacto sobre a sua consciência, sem que você interfira.

O objetivo da meditação é aquietar a mente. Dessa quietude suscitada pela meditação brota um sentimento de profunda tranqüilidade e harmonia que aos poucos se torna a base das suas experiências exteriores e de auto-expressão.

A natureza da sua mente superficial cotidiana consiste em movimento: pensamentos afloram e se dissipam o tempo todo, saltando de um assunto para outro, de modo a afastá-lo do seu propósito. Quando você medita sobre uma mandala, esses pensamentos periféricos a princípio podem levá-lo a divagar, mas com a prática você consegue deixá-los em segundo plano, sem sentir o impulso de acompanhá-los. Se você se obrigar a parar de pensar, os pensamentos assumirão o controle, mas, se relaxar e apenas permitir que eles se sucedam sem lhes dar atenção, eles acabarão por se aquietar e deixam de ser uma distração. Cada vez que a sua mente tentar se afastar da meditação, basta trazê-la gentilmente de volta para a mandala.

As mandalas são instrumentos poderosos de meditação porque a mente cria as suas associações mais fortes por meio de imagens. Se você pensar numa flor, ou nas ondulações de um lago, ou numa constelação, uma imagem surge instantaneamente na sua tela mental. Por ser intensamente visual e emoldurada por um desenho dinâmico, a mandala, depois de absorvida pela mente, provoca mudanças no seu estado mental, que então filtra os seus sentimentos e os influencia. Isso pode gerar um estado alterado de consciência que traga à tona vislumbres intuitivos e aguce a sua percepção.

As suas reações a qualquer situação ou experiência dependem totalmente da maneira como você vê esse momento em particular. Se você está aborrecido, um pequeno desapontamento pode deixá-lo arrasado. Se está fortalecido e confiante essa mesma decepção pode não parecer tão grande aos seus olhos e ser logo esquecida. A meditação com mandalas ajuda você a perceber as coisas mais claramente e com um sentimento de bem-estar que acaba influenciando o seu modo de encarar os altos e baixos da vida diária.

Texto extraído do livro: "Mandalas da Natureza"
Autor: Lisa Tenzin-Dolma 
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