14/04/11

Os 4 Elementos


Os quatro elementos são uma construção familiar. Pouco sabemos da sua história, da sua composição química ou dos seus devaneios (como diria Bachelard) que inspiraram a artistas, filósofos e cientistas, mas Água, Ar, Terra e Fogo são velhos companheiros. Os quatro elementos integram o nosso imaginário, atravessam as nossas percepções mais diversas. Desde Empédocles e Aristóteles que estruturam as nossas tentativas de explicação da natureza.

Hoje, segundo Jean Baudrillard, falar de ecologia é verificar a morte e abstração total da natureza. Por toda a parte “o direito a” subscreve “o definhamento de”. O grande referente Natureza morreu e o que o substitui é o “ambiente” e uma manipulação do ambiente. O que são a “natureza” ou o “ambiente”? A projeção de um modelo social, sempre. Vejamos, o sol “já nada tem a ver com a função simbólica coletiva que tinha(...). Já não tem aquela ambivalência duma força natural – vida e morte, benfeitor e assassino - que tinha nos cultos primitivos ou ainda no trabalho rural.” O sol é agora um sol de férias, oposto ao não-sol (chuva, frio, mau tempo). E a terra, o ar e a água deixaram de ser simples forças produtivas tornaram-se bens raros e entraram no campo do valor da economia política, pelo que a necessidade do controle social dos “elementos”, muitas vezes sob o signo da proteção do ambiente, se reflete também nas imagens que hoje criamos.

Um exercício simples de associações livres aos quatro elementos poderá resultar em respostas tão dispares como “signos do zodíaco”, “tabela periódica” ou “linha de perfumes da Hugo Boss”. O Ar pode ser associado ao céu, às nuvens e ao vento ou a sentimentos de liberdade ou de vazio. Se uma criança pensar em Água pode lembrar-se mais rapidamente de piscinas que do mar, uma parte dos habitantes da Terra pensarão em sede e chuva, outros em serenidade e vida. A Terra tanto significa sementes a desabrochar e abundância, como pó, mãos e pés sujos. O cheiro da terra molhada convive na imagética humana com histórias de reformas agrárias . E o fogo “arde sem se ver”, é paixão, ou é guerra e medo, calamidade natural, incêndio. As chamas destroem ou purificam.

Cada um dos elementos pode encarnar o que simboliza. Ou seja, o Fogo não representar apenas alguma coisa mas ser ele próprio a coisa simbolizada: Deus, paixão, guerra, pureza, o humano. Para Levi Strauss o pensamento mítico é concreto, um pensamento onde as imagens são coisas e onde as coisas são idéias, “onde as palavras dão existência ou morte às coisas”.

Cada um dos elementos pode remeter a um conceito, ou seja, para um juízo ou raciocínio que estabelece uma diferença entre as nossas vivências subjetivas e a estrutura objetiva do que é analisado.

Hoje sabemos que o pensamento mítico, que pertence ao campo do pensamento simbólico e da linguagem simbólica, coexiste com o pensamento e a linguagem conceituais. Na verdade, a imaginação social transformará em mito aquilo que o pensamento conceitual elabora nas ciências e na filosofia. A percepção e a simbolização da natureza(ou do ambiente) e seus elementos é embebida pelos ritmos acelerados da modernização. Em cada instante e lugar, as comunidades filtram uma visão, que funde passado presente e futuro (isto é, sonho). Pensar os quatro elementos hoje, significa pois, ainda, pensar o homem.
Ar, Água, Terra e Fogo são sensações, afetos, raízes, experiências estéticas, paradigmas científicos, memória cultural, modelos sociais, estruturas econômicas, ideologias, que se fundem em múltiplas percepções e imagens, ou que produzem, por “deformação” das imagens iniciais, algo que suplanta todas as realidades, o imaginário.

Para compreender as ameaças à biosfera, é fundamental que as ciências sociais estudem esse imaginário. Ele está na gênese das crenças, atitudes e comportamentos dos seres humanos face ao Meio Físico. Ele condiciona o olhar e a ação das/nas sociedades face às questões ambientais.

Maria R. Girardier

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